

Esqueçam as previsões. Ontem o esporte provou mais uma vez que é imprevisível e, por isso, tão sensacional. O Australian Open começou com todas as expectativas voltadas para Andy Murray, e acredito que ninguém imaginou que terminaria de forma tão grandiosa. Uma final para ficar na memória, para a História. Uma grande demonstração de tênis e humanidade, na qual os dois melhores jogadores do mundo passaram uma mensagem valiosa a quem os assistia.
Após uma batalha de mais de 5 horas na semifinal, ficou a impressão de que nosso Rafa estaria cansado demais para conseguir enfrentar de forma igual seu próximo adversário, Roger Federer, que por si só já é motivo de preocupação para qualquer jogador. Mas existe um detalhe que nunca se deve esquecer: estamos falando de Rafael Nadal. Passasse o que passasse, ele entraria em quadra para vencer.
Rafa estava um pouco afetado pelo cansaço, pensando mais antes de dar tudo em todos os pontos, tentando acelerá-los. Felizmente conseguiu manter o bom jogo e fazer, junto a Federer, uma partida de altíssimo nível. Com jogadas lindas de ambos os jogadores, as coisas foram bastante disputadas até o 5º set (7-5, 3-6, 7-6, 3-6), quando Federer sofreu uma quebra de serviço e, a partir daí, não conseguiu mais voltar mentalmente. Estava feito. 6-2 Nadal no set decisivo, Rafa é o campeão do Aberto da Austrália 2009.
A minha alegria (e acho que a de todos os admiradores de Rafael Nadal) foi indescritível. Há algum tempo ele vem mostrando melhoras em todos os aspectos, evidentes em quadras duras, superfície na qual tem menos facilidade, mas o reconhecimento parecia não vir. Mesmo com resultados e uma medalha de ouro no peito, era triste ver que um jogador tão gabaritado tenha que sempre silenciar os críticos através de seus feitos. A parte boa? Ele consegue fazê-lo. E espero que siga fazendo muito, muito mais.
Mas o espetáculo não acabou aí. Na cerimônia de entrega de troféus, surpresa. Roger, que buscava igualar o recorde de número de Grand Slams vencidos de Pete Sampras, muito abalado, não conseguiu fazer seu discurso e desabou em lágrimas, deixando em estado de choque todos que presenciavam a cena, ao vivo ou não. Acho que pela primeira vez o suíço mostrou claramente o quanto humano ele é e isso tornou aquele momento muito forte. Vimos ontem um lado frágil de Federer, algo que não conhecíamos. Sabemos, ele não é o exemplo de humildade, mas é um grande campeão e sabe agir como tal. Quando Nadal subiu para receber o troféu, o suíço o tocou carinhosamente no peito. Foi um gesto que ficou marcado, assim como quando Rafa o abraçou ao vê-lo ali em lágrimas. Não apenas os gestos em si, mas a liberdade entre eles para que algo assim acontecesse diz muito. Quando se podia imaginar um momento desses entre dois jogadores nessa situação? Eles mostram que seu sucesso vai muito além do tênis. O que fazem com as raquetes um dia vai acabar, o que levam no coração é deles para sempre.
Rafa mostrou, e vem mostrando desde sempre, o tamanho de sua grandeza - dentro e fora das quadras. Impressionante como ele pode ser tão homem e tão garoto ao mesmo tempo. Humilde, inocente em algumas coisas que fala e, ao mesmo tempo, sensato, maduro, consciente e doce. Isso é apaixonante.
Vai levar tempo para os admiradores de tênis esquecerem esse Australian Open, mas creio que nem uma eternidade será suficiente para esquecermos um dos maiores jogadores de todos os tempos, Roger Federer, e um garoto fenomenal, Rafael Nadal, que pode com o suíço e cada vez mais deixa seu nome na História.
* A surpresa do Australian Open ficou por conta de Fernando Verdasco, que venceu um dos favoritos Andy Murray e chegou à semifinal, sendo derrotado por Rafa Nadal em partida de 5 sets e 5 horas e 14 minutos de duração.
VAMOS, RAFA!